Reflexões sobre o Scrum Parte 2 – Valores

Dando continuidade à série Reflexões sobre o Scrum, vamos atentar sobre o significado de cada um dos valores do Scrum e como percebemos seus benefícios e as dificuldades de trazê-los para o nosso dia a dia. Vale lembrar que é sempre importante falar sobre valores, pois são eles que definem / orientam nossas atitudes e decisões.

O Scrum é um framework com regras, papéis e princípios que auxiliam as pessoas a descobrirem o que realmente faz diferença pra elas. Quando se fala em Scrum, com frequência, os aspectos mais profundos do framework não são citados, reduzindo-o a apenas um conjunto de cerimônias e papéis. De maneira nenhuma quero desmerecer a importância desses elementos, porém Scrum é mais que isso. O framework se baseia em 5 valores: Compromisso – Foco – Abertura – Respeito – Coragem, através deles entendemos a direção que devemos tomar, mesmo quando precisamos de uma resposta que não está escrita em nenhum lugar.

 

Coragem

Vivemos em uma sociedade que rotula o erro como fracasso, fazendo com que, muitas vezes, seja mais confortável não se expor e aceitar uma situação apenas porque “sempre foi assim” ou porque “foi o fulano que mandou”. O medo de errar, de “demonstrar fraqueza”, faz com que muitas equipes camuflem indicadores e façam entregas de baixa qualidade ou sem valor algum para o negócio.

Em uma breve pesquisa que fiz a respeito do papel do Scrum Master apenas 42% das pessoas que responderam o formulário consideram a coragem como um atributo importante para uma pessoa exercer este papel. Este número me causou muito desconforto, pois, assim como os demais, é um valor imprescindível para atuar como Scrum Master ou como qualquer outro papel em um time Scrum.

Como um indivíduo irá admitir seus erros quando for necessário, como irá enfrentar a necessidade de mudança cultural em uma organização e como lutará pela transparência mesmo quando isso significar admitir que existem problemas impactando o time que ainda não foram tratados se não tiver coragem? Um time sem coragem será apenas um grupo de pessoas cumprindo processos sem entender verdadeiramente o Scrum. Não há empirismo sem coragem.

Se este valor está faltando no time, uma boa tática para praticá-lo é começar questionando o motivo das coisas serem como são, refletir sobre como foi a última Sprint e falar sua percepção na retrospectiva para seus colegas, mesmo que isso implique em ser “o único que fala”.

Foco

Assim como o uso excessivo de redes socias podem abalar nossa produtividade, as muitas interrupções ou mudanças de escopo frequentes durante uma Sprint impedem um time de trabalhar em prol de uma entrega. Essas distrações afetam não só nossa eficiência como também nosso empenho em obter sucesso.

Frequentemente, em um time, a dispersão se dá pela falta de um objetivo de negócio. Entender o que realmente importa, no que de fato traz valor para o cliente e não perder esse alvo de vista é o guia para a inspeção e a adaptação. Um dos benefícios de trabalhar com timebox e ciclos curtos é que eles permitem que o time mire em uma meta terminando o que começou antes da chegada de uma nova demanda.

Existem inúmeras possibilidades para trazer mais foco para um time Scrum, recomendo analisar e discutir os episódios que desviaram o time do percurso para entender a origem deles e como evitar que se repitam. Já precisei, em mais de uma ocasião, medir o impacto do excesso de intervenções externas para demonstrar para a gerência o quanto isto estava sendo prejudicial para o rendimento do time (e comprei muita briga pra blindar um time e provar que assim os resultados são melhores para todos).

Comprometimento

Assim como a clareza do objetivo, o empenho em atingir esse alvo é de suma importância para o êxito de um time Scrum. Ser comprometido implica em fazer mais que o esperado, ir além das fronteiras da zona de conforto de apenas cumprir pontos planejados na Sprint. Um time Scrum demonstra comprometimento quando seus membros concordam em aprender, ensinar e colaborar entre si.

Rotineiramente me deparo com a falta de comprometimento causada por um dos seguintes fatores:

  • Cultura da empresa: ambientes tóxicos onde as pessoas são tratadas como meros peças de uma engrenagem sem vida, falta de reconhecimento e apoio no desenvolvimento pessoal colaboram para que o hábito do “fazer o mínimo necessário” seja a diretriz.  
  • Falta de motivação: a negatividade e o desânimo também influenciam na falta de comprometimento. E não há cultura organizacional que motive uma pessoa que não acredita que é necessário ter força de vontade e perseverança para atingir seus objetivos.

Para ambos os casos, são necessárias intervenções que promovam o desenvovlimento de soft skills, que envolvam as pessoas nas decisões e na construção do propósito. Obtemos muito mais comprometimento das pessoas que possuem o sentimento de pertencimento. É possível aumentar essa consciência dentro de um time, incentivando que seus próprios membros criem e revisem seus acordos periodicamente, a fim de que todos possam experimentar e entender a importância de cada compromisso firmado.

Respeito

Sendo que um time é formado por pessoas e as relações entre elas e que nenhuma relação prospera se não houver respeito, temos argumentos suficientes para colocar o respeito como fundamental, não só no uso do Scrum, como para qualquer outra metodologia ágil. Manifestamos esse valor quando entendemos e aceitamos as diferenças entre os membros do time, seja de opinião, de habilidade ou experiência, quando orientamos nosso cliente para que ele não desperdice tempo e dinheiro em funcionalidades inúteis ou com pouco valor, quando chegamos pontualmente em um compromisso e quando honramos nossos compromissos.

Um time que exibe habilidade em vivenciar esse valor é contituído de pessoas que possuem e valorizam essa virtude. A habilidade de ouvir opiniões divergentes sem desprezá-las pode ser treinada através da técnica de escuta ativa. Respeito é dar atenção às necessidades das pessoas, ajudá-las sem julgamentos e sem vestir a capa do super-herói. Todos tem algo a colaborar.

Abertura

Calaramente, não há como adaptar o que não é inspecionado, porém a melhoria contínua não repercutirá positivamente  se a inspeção ocorrer em comportamentos escusos ou fatos mal esclarecidos . Praticarmos a abertura garante que não faremos adaptações errôneas que dificilmente nos trarão bons resultados.

Empreendemos esse valor quando estamos abertos ao nosso trabalho, nosso desempenho e aos nossos desafios. Pessoas dispostas a colaborar, a ouvir sugestões, a realizar melhorias, a aprender empiricamente e a desenvolver novas habilidades respondem melhor as mudanças. Um time formado por essas pessoas é um time de alta performance.

Como incentivar a reflexão sobre os valores do Scrum?

Abaixo, algumas ideias que já apliquei:

  • Criar um Kudo Cards de valores do Scrum para os membros presentearem entre si durante a Sprint
  • Questionar, na retrospectiva do time, quais valores foram ou não presentes, citando as ocasiões em que foi possível identificá-los e refletir sobre qual valor poderia ter sido empregado para evitar algo que não foi bem
  • Pedir para que cada membro fique responsável por pesquisar cada valor e fazer uma mini apresentação para seus colegas
  • Scrum Game

Esses valores devem ser um guia para o trabalho, comportamento e ações do time Scrum, sendo que devemos reforçar esses valores no nosso dia a dia e em todas as práticas, só assim estaremos de fato vivendo o Scrum e não apenas seguindo um processo. Quando, de fato, entendemos esses valores nossa vida se transforma, se torna impossível não levá-los para o âmbito pessoal.

Leia também:

There’s value in the Scrum Values

https://www.scrum.org/resources/blog/5-scrum-values-take-center-stage

https://www.concrete.com.br/2019/04/23/valores-scrum-no-dia-a-dia/

https://www.ibccoaching.com.br/portal/comportamento/escuta-ativa-entenda-como-desenvolve-la-ambiente-de-trabalho/

 

 

Publicado por

Camila Capellão

Entusiasta em agilidade, participo ativamente da comunidade ágil, acredito no poder das ações coletivas e do trabalho voluntário. Tenho mais de 13 anos de experiência na área de TI em diferentes projetos e papéis. Atualmente atuo como Agile Coach no Núcleo de Engenharia CWI, inspirando e motivando pessoas a buscarem seu propósito e a darem o melhor de si.

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